sexta-feira, 3 de julho de 2026

Céu azul louco

 Durante anos eu desenvolvi uma técnica infalível para acompanhar minha mãe nas consultas do câncer: eu a levava até o hospital… e não subia.


Ficava lá embaixo. Dando apoio logístico. Em outras palavras, eu era um covarde muito bem organizado.


Quem entrava no consultório era a Dani. Eu sempre inventava alguma desculpa que convencesse absolutamente ninguém. A verdade era simples: eu tinha medo de ouvir a médica.


Também nunca abria os exames.


Depois de tantos anos, eu já sabia traduzir aquele monte de siglas, números e palavras difíceis. E, quando não sabia, fazia o que qualquer cidadão do século XXI faz: jogava tudo no ChatGPT. Quase sempre a resposta vinha acompanhada de um frio na barriga.


Mas, naquele dia, eu abri.


Não precisava ser médico para perceber que as coisas não estavam andando na direção que todo mundo gostaria. Alguns números tinham aumentado. E, junto com eles, aumentou a minha imaginação, que é um péssimo lugar para passear em dias assim.


Olhei em volta.


Hospital tem uma estranha capacidade de fazer a gente acreditar que o mundo inteiro resolveu adoecer no mesmo horário.


Um senhor caminhava bem devagar. Uma senhora tossia sem parar porque o câncer já tinha chegado aos pulmões. O sistema de atendimento tinha caído. A recepcionista gritava nomes como se estivesse anunciando embarque em rodoviária na véspera de feriado.


Era um caos.


E, curiosamente, foi no meio daquele caos que aconteceu a coisa mais silenciosa do dia.


Olhei para cima.


Entre concreto, placas, luminárias e janelas, havia um recorte minúsculo de céu. Azul. Um azul quase constrangido, como se tivesse pedido licença para aparecer.


Na hora me lembrei de uma frase que ouvi certa vez:


“Quando não houver mais nada para fazer, agarre-se à fé.”


Engraçado.


A situação continuava exatamente a mesma. O exame não mudou. O hospital continuava barulhento. A recepcionista não parou de gritar. A senhora continuava tossindo.


Mas alguma coisa mudou aqui dentro.


Pela primeira vez naquele dia, consegui respirar um pouco melhor.


Às vezes a fé não resolve o problema.

Mas ela organiza a bagunça que o problema faz dentro da gente.





sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Você ainda vai...

Você vai cair várias vezes ainda e vai levantar em todas.

Vai desacreditar de Deus e depois vai pedir ajuda aos céus.

Vai querer um presente, mas continuará no passado.

Vai chorar, vai sorrir...

Vai viver entre copos cheios, almas vazias e transbordará na solidão angustiante dentro do seu quarto.

Vai lembrar que ser triste é bem mais fácil do que ser feliz.

Vai acordar carente, mas terá sempre um abraço reconfortante.

Vai querer andar na mentira, mesmo falando verdades.

Vai tentar ser você... Vai tentar ser os outros... Você ainda vai fazer muitas coisas.

Vai errar tentando acertar.

Vai acertar sabendo que estava errado.

Vai fazer RAP em forma de canção de amor.

Vai viver, vai amar, vai e vai!

Você vai cair várias vezes ainda e vai levantar em todas.

Vai desacreditar de Deus e depois vai pedir ajuda aos céus.

Vai querer um presente, mas continuará no passado.

Vai chorar, vai sorrir...

Vai viver entre copos cheios, almas vazias e transbordará na solidão angustiante dentro do seu quarto.

Vai lembrar que ser triste é bem mais fácil do que ser feliz.

Vai acordar carente, mas terá sempre um abraço reconfortante.

Vai querer andar na mentira, mesmo falando verdades.

Vai tentar ser você... Vai tentar ser os outros... Você ainda vai fazer muitas coisas.

Vai errar tentando acertar.

Vai acertar sabendo que estava errado.

Vai fazer RAP em forma de canção de amor.

Vai viver, vai amar, vai e vai!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Tinha que ir, mas não fui

- Eu tenho que ir!
Era o que a minha cabeça sempre dizia em qualquer situação.Talvez seja por que eu sempre fui acostumado com partidas.
Quando pequeno minha avó me deixou, logo o meu avô e depois a minha outra vó. Teve também um episódio em que a minha madrinha, que tivera me acostumado com presentes caríssimos e pouco amor, teve que partir. Sumiu e nunca mais voltou! 
Grandes amigos tiveram que partir também. Um ficou na Europa, outro mudou de cidade, um não se encontrou mais e o outro se foi, da mesma forma que os meus avôs se foram.
Eu fui acostumado com "Tudo que é bom também acaba".
Mas dessa vez, eu não estou dando atenção para aquela voz que insiste em dizer: - Eu tenho que ir!
Ando meio rebelde quanto a isso. Já não acredito que tudo tem que acabar. Eu tento lutar contra esse pensamento de que tudo tem que ir embora.
Em 2005, eu vivia o segundo melhor momento da minha vida até hoje. Morava na Inglaterra, em uma cidadezinha chamada Newquay. Eu estava feliz, tinha me encontrado, sabia do que eu gostava e mesmo assim diante daquela paisagem exuberante, a minha cabeça dizia: - Eu tenho que ir! 
Eu sabia que uma hora aquela felicidade iria acabar e não fiz nada para evitar que chegasse ao fim e apenas obedeci o que a minha cabeça insistia em me dizer. Eu tive que ir, assim como as pessoas que eu gostava tiveram que ir, assim como o meu gatinho, que me acordava toda manhã, teve que ir também. Eu fui e não fiz nada para evitar, até porque "tudo que é bom acaba também".
Hoje, diante do melhor momento da minha vida, o pensamento do " Eu tenho que ir" insiste em me assombrar, mas existe um problema. Dessa vez, eu não estou nenhum pouco afim de ir, eu quero ficar! Eu quero quebrar a escrita e provar que o "Tudo que é bom pode durar para sempre". 
Eu estou disposto a enfrentar todos os dias, o conformismo da partida com a vontade de eternizar a felicidade desse momento maravilhoso e único da minha vida.
- Eu tenho que ir! disse a minha cabeça.
E eu respondi: - Eu posso até ir, mas dessa vez eu só vou acompanhado da mulher que mudou a minha vida.

A partir daí, a minha cabeça nunca mais falou no singular

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Esquecer

O que você vai levar da vida?
Esqueça seus carros. 
Esqueça o bolso da sua calça importada. 
Esqueça da marca da sua carteira de couro de boi argentino.
Esqueça do seu travesseiro com penas de ganso espanhol. 

ESQUEÇA! 

Esqueça da sua bebida preferida que não tem gosto de nada mas o preço é alto.
Esqueça dos três talheres que o garçom coloca pra você no seu restaurante favorito. 

Dispa-se! 

E o que você tem agora?
Lembre-se do abraço apertado que você ficou devendo para a sua família faz tempo.
Lembre-se daquela noite que você usou o crédito para pagar a cerveja no posto.
Lembre-se da sua esposa que você deixou de lado e não a beija como ela merece faz tempo.
Lembre-se das vezes que você bancou o juiz e condenou a pessoa errada.
Lembre-se dos seus erros e o que eles te ensinaram. 

Vista-se!


E agora, o que você tem?

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Rima-se



O mundo parou, sorriu, desandou ninguém te perguntou até aquele dia que você enfureceu e surtou

O passado já se foi, correu parou... o presente tá ai, vivo demais passando depressa e ficando pra trás.. jaz... não é mais...agora olha pra frente, rapaz!
Busca de verdade! o sonho que você deixou lá, naquele tempo...sagaz!

Não para de lutar!
Mundo não quer te ver sorrir, ele só que te ver chorar.
Da ibope, é melhor...
Assim como o preço alto do mesmo produto que nem é pior.

Não vacila, tiu!
Mostra pra porra do mundo tudo o que você sentiu!

Não desacredita não!
Oha pro céu, respira e bora pra mais uma missão. 

Fazer isso aqui é a parte mais fácil.
Viver que é o desafio e você nem tá ligado.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O íntimo que morreu, mas não deixou de viver

Nossas cartas de amor deixaram de ser íntimas há algum tempo. Não escrevemos mais por amor, escrevemos para que os outros invejem e curtam o nosso amor. 

Aquele sincero e verdadeiro "Te amo" virou um "Amo-te" rebuscado e corretamente perfeito. Aquelas cartas antigas e intimas, se tornaram grandes textos preocupados com a estética, com as vírgulas, com os pontos. Tem de tudo gramaticalmente, menos o verdadeiro sentimento na palavra. 

Não acho errado demonstrar o amor, desde que ele seja verdadeiro e não para que os outros sejam obrigados a engolir nossos grandes conjuntos de palavras rebuscados e sem verdade. 

Perdemos o íntimo!

Nossas cartas sumiram e foram substituídas por fotos com paisagens exuberantes, onde apenas a paisagem é exuberante e nada mais. Até porque os lugares pintados como um quadro são possíveis de compra, mas sentimento é algo que se brota e é impossível de construir. 

Falo isso, porque recebi uma mensagem no meu maior grau de intimidade, e fiquei emocionado. 
Não me importei com vírgulas, pontos ou concordância. Mas me importei com aquilo que estava escrito e me pareceu tão real diante do meu próprio universo livre e solitário. Ninguém escreveu "ainnn", Ownnn","fofos" ou outras coisas. 

Eu determinei que era verdadeiro. Somente eu.

No maior grau de solidão e intimidade, aquela mensagem fez com que meu universo gigantesco e cheio de espaço ficasse preenchido.

Sem comentários e sem curtidas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Artigo 157

Sim, eu sou um ladrão. Tudo começou bem pequenino quando percebi que poderia interferir no pensamento das pessoas. Minha mãe, minha avô, meu pai, minha irmã sofreram com  os ataques de um ser aparentemente inofensivo. No começo foi tudo involuntário, mas aquilo foi crescendo gradativamente.


Com o passar do tempo fui me apoderando de diversas mentes, como um vício. Era notório que cada pessoa que se aproximava,  saía com alguns pensamentos colocados propositalmente em sua cabeça. Na maioria das vezes, a influência era invisível e aquela opinião que você tanto defendia não era sua, mas sim minha.

Isso aconteceu porque eu sou um ladrão de mentes.

Em casos mais próximos, eu cheguei a comandar 90% do alvo fazendo acreditar que os nossos ideais eram parecidos, mas de alguma forma diferentes. Já disse e volto a repetir sou apenas um ladrão de mentes.

Tente recordar...

Sabe aquela discussão que você não tem ideia por que começou? Sabe aquele pensamento que você jamais descobriu o motivo de vir à tona?Se lembra daquele sentimento que você nunca entendeu e ficou com medo de expor? Fui eu que os coloquei  lá dentro.

E por que eu fiz isso? Porque, como foi dito anteriormente, eu sou um ladrão de mentes.

Vale a pena dizer que em momento algum eu tomei posse de uma criação sua, mas não se esqueça que essa criação somente surgiu porque em determinado momento eu estive ali. Tudo isso porque eu me tornei um ladrão de mentes.
Se houvesse uma justificativa para todas as minhas ações,  eu diria que comecei a roubar mentes para tentar diminuir e acabar com uma população demente.