Durante anos eu desenvolvi uma técnica infalível para acompanhar minha mãe nas consultas do câncer: eu a levava até o hospital… e não subia.
Ficava lá embaixo. Dando apoio logístico. Em outras palavras, eu era um covarde muito bem organizado.
Quem entrava no consultório era a Dani. Eu sempre inventava alguma desculpa que convencesse absolutamente ninguém. A verdade era simples: eu tinha medo de ouvir a médica.
Também nunca abria os exames.
Depois de tantos anos, eu já sabia traduzir aquele monte de siglas, números e palavras difíceis. E, quando não sabia, fazia o que qualquer cidadão do século XXI faz: jogava tudo no ChatGPT. Quase sempre a resposta vinha acompanhada de um frio na barriga.
Mas, naquele dia, eu abri.
Não precisava ser médico para perceber que as coisas não estavam andando na direção que todo mundo gostaria. Alguns números tinham aumentado. E, junto com eles, aumentou a minha imaginação, que é um péssimo lugar para passear em dias assim.
Olhei em volta.
Hospital tem uma estranha capacidade de fazer a gente acreditar que o mundo inteiro resolveu adoecer no mesmo horário.
Um senhor caminhava bem devagar. Uma senhora tossia sem parar porque o câncer já tinha chegado aos pulmões. O sistema de atendimento tinha caído. A recepcionista gritava nomes como se estivesse anunciando embarque em rodoviária na véspera de feriado.
Era um caos.
E, curiosamente, foi no meio daquele caos que aconteceu a coisa mais silenciosa do dia.
Olhei para cima.
Entre concreto, placas, luminárias e janelas, havia um recorte minúsculo de céu. Azul. Um azul quase constrangido, como se tivesse pedido licença para aparecer.
Na hora me lembrei de uma frase que ouvi certa vez:
“Quando não houver mais nada para fazer, agarre-se à fé.”
Engraçado.
A situação continuava exatamente a mesma. O exame não mudou. O hospital continuava barulhento. A recepcionista não parou de gritar. A senhora continuava tossindo.
Mas alguma coisa mudou aqui dentro.
Pela primeira vez naquele dia, consegui respirar um pouco melhor.
Às vezes a fé não resolve o problema.
Mas ela organiza a bagunça que o problema faz dentro da gente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário